A ira de Aquiles
No décimo ano do cerco à cidade de Tróia, os
gregos foram surpreendidos por uma terrível
peste, enviada pelas setas do deus Apolo. Os
animais foram os primeiros a serem atingidos, mas
logo a doença contaminava os homens, multiplicando
pelo acampamento as piras erguidas para
incinerar os mortos. Condoído pela sorte dos seus,
Aquiles reuniu o exército. Conhecedor do presente,
passado e futuro, o adivinho Calcas tomou a palavra
perante a assembléia dos gregos:
— Apolo está irritado com a ação de
Agamêmnon. Como todos sabem, o rei maltratou o
sacerdote do deus, quando este veio reclamar de
volta a filha Criseida, aprisionada e escravizada por
ele na cidade de Tebas da Mísia. Agamêmnon não
quis devolver a moça ao pai; enquanto isso não
ocorrer, Apolo nos infligirá dores sem conta.
Agamêmnon enfureceu-se com aquelas palavras,
mas comprometeu-se a restituir a sua presa de
guerra, desde que obtivesse uma compensação.
Suspeitando que o rei desejava tirar-lhe sua escrava
Briseida para substituir a filha do sacerdote, Aquiles
ferveu de indignação:
— Despudorado, cão, nós o seguimos até aqui
para que seu irmão Menelau se vingasse da afronta
dos troianos, e você ameaça tirar-me Briseida? Eu
lutei tanto para capturá-la! Vou retirar-me para a
minha cidade natal. Não quero ficar aqui, humilhado,
conquistando bens e riquezas só para você.
— Vá embora, então — replicou Agamêmnon. -
Você só aprecia disputas, guerras e batalhas. Já que
me levam Criseida, tomarei para mim a sua Briseida,
escrava de bela face, para que saiba como sou mais
poderoso do que você.
O filho de Peleu, Aquiles, ardeu de tamanho ódio
que chegou a pensar em matar o rei. Foi então que,
enviada por Hera, que queria proteger um e outro,
Palas Atena desceu à terra e puxou Aquiles pelos
cabelos loiros. Só o herói conseguia vê-la; perguntou-
lhe o que ela fazia por ali.
— Vim para acalmar sua ira, disse Palas Atena, a
deusa de olhos azuis. Não use a espada contra o rei,
mas o maltrate apenas com as palavras. Um dia, por
causa da violência que estão fazendo a você, esses
mesmos homens lhe
darão o triplo de
bens. Por isso, contenha
seu ódio e obedeça!
Aquiles, então, obedecendo,
desistiu de
usar a espada, mas
cobriu o rei com pesados
insultos; Agamêmnon
replicou com a
mesma dureza. Permaneceram
os dois
cada qual em sua
posição, uma disputa que seria prejudicial aos
gregos. Após a dissolução da assembléia, Aquiles
retirou-se para sua tenda, acompanhado do fiel
amigo Pátroclo e de outros companheiros. Cruzava
os braços, deixando o exército grego entregue à
própria sorte. Pouco depois, vieram buscar a sua
escrava Briseida, que o herói deixou partir.
Sozinho à beira-mar, Aquiles chorava e invocava
a mãe, a deusa Tétis, de pés argênteos. Queixava-se
de não receber a honra que os deuses lhe prometeram
em sua breve vida. Surgindo dos abismos do mar
como uma névoa, a deusa acariciou o filho e, ao
saber o motivo daquele pranto, prometeu-lhe
queixar-se pessoalmente a Zeus de uma tal afronta.
Doze dias depois, quando o supremo rei e pai dos
deuses retornou de uma viagem à África, Tétis,
abraçada a seus joelhos, como era costume quando se
suplicava a alguém, falou-lhe assim:
— Zeus pai, se eu, entre os imortais, alguma vez
te ajudei, atende à minha súplica: concede honra a
meu filho, destinado a uma morte precoce. Dá vitória
e glória aos troianos enquanto os gregos não
atribuírem a ele as honras devidas.
Apesar de temer a ira da esposa Hera, que apoiava
os gregos, Zeus comprometeu-se a atender ao
pedido, franzindo as sobrancelhas num sinal de
aprovação; seus cabelos de ambrosia se agitaram e
todo o Olimpo tremeu.
Dias de derrotas se sucederam para os gregos, que
sentiram na pele a falta que fazia Aquiles, o herói de
pés ligeiros. Sempre mais desconsolados a cada dia
que passava, os gregos resolveram enviar uma
embaixada de conciliação à tenda do herói. Mas
Aquiles recusou os ricos presentes que lhe traziam e,
dentre muitas outras palavras, proferiu estas:
— Minha mãe Tétis disse-me que o destino me
reservava uma escolha: se eu permanecer em Tróia,
combatendo, morrerei conquistando grande glória,
mas se eu voltar para casa, terei uma vida longa,
ainda que sem glória. Voltem, vocês todos, pois não
verão jamais o fim da cidade de Príamo. Amanhã
decidirei se voltarei para casa ou permanecerei aqui.
Acumulavam-se os sofrimentos dos gregos.
Pátroclo, então, o grande companheiro de Aquiles,
pediu-lhe que, ao menos, permitisse que ele usasse
sua armadura e suas armas para ir em ajuda aos
companheiros. Aquiles consentiu.
No campo de batalha, Pátroclo faz grande
carnificina entre os inimigos troianos, mas Apolo
intervém. Dissimulado em uma densa névoa, o deus
chega perto de Pátroclo, golpeia-o na espinha e nos
ombros e derruba o elmo de sua cabeça. Heitor,
então, o maior dentre os guerreiros troianos, passaria
a usar aquele capacete que outrora protegia Aquiles e
jamais tinha caído ao chão antes daquele momento.
Apolo continua a agir sobre Pátroclo; rompem-se
a lança e o cinturão que o herói trazia consigo; cai
por terra o seu escudo, e o deus ainda lhe tira a
couraça. O herói pára, completamente aturdido. Um
troiano de nome Euforbo o fere, enterrando uma
lança nos seus ombros. Heitor, percebendo que
Pátroclo está ferido e procura se salvar retirando-se
da batalha, fere-o com uma lança no ventre. O
troiano parecia um leão vitorioso depois de disputar
com um javali indomável a posse de uma mina de
água. Diz Heitor:
— Pátroclo, você estava certo que iria tomar de
assalto a nossa cidade e escravizar as mulheres
troianas. Tolo! Os abutres o devorarão! Aquiles não
poderá mais proteger você.
Mas Pátroclo ainda teve forças para responder:
— Isso mesmo, Heitor, você se vangloria com
uma vitória que Apolo e Zeus lhe deram; mas foram
os deuses que tiraram minhas armas. Mas ouça bem
o que tenho a lhe dizer: Você não irá muito longe;
logo virão ao seu encontro a morte e o destino
invencível. Morrerá às mãos de Aquiles.
Depois de assim falar, a alma lhe voou dos
membros e desceu ao reino dos mortos, o sombrio
Hades, lamentando sua sorte, já que deixava um
corpo há pouco cheio de vigor e juventude. Heitor
dirigiu ao morto estas palavras:
— Pátroclo, por que me prediz terrível destino?
Talvez Aquiles me preceda, ferido pela minha lança.
Então o troiano arrancou a sua arma do corpo do grego
e pisou-o.
Foram levar a notícia a Aquiles, que naquele
momento tinha o coração inquieto e a mente cheia de
receios. Já pressentia a morte do companheiro. Ao
receber a confirmação de suas suspeitas, o herói
demonstrou sua aflição: cobriu de cinzas o rosto e a
veste e caiu por terra arrancando os cabelos. Chorava
e gritava desconsolado.
Aninfa Tétis ouviu os lamentos do filho e gemeu;
todas as ninfas do mar acompanharam sua dor e
choraram. A mãe foi consolar Aquiles, que se sentia
culpado pela morte do amigo e pretendia voltar ao
combate para vingar a morte de Pátroclo.
Tétis prometeu ao filho novas armas, já que as
dele haviam sido tiradas do corpo de Pátroclo e agora
pertenciam a Heitor. A promessa logo se cumpriu. A
pedido da ninfa, armas novas foram fabricadas pelo
deus ferreiro, Hefesto. Chamava a atenção,
sobretudo, um grande escudo em que o deus
representara a terra, o mar, o céu com seus astros,
além de cidades e campos. Quando a Aurora do dia
seguinte despontou, trazendo a luz aos mortais e
imortais, Tétis levou ao filho as armas fabricadas por
Hefesto. Encontrou-o chorando, abraçado ao corpo
do amigo.
Aquiles, então, dirigiu-se a Agamêmnon e disse-lhe
que desistia de sua ira; pediu-lhe que esquecesse
a disputa que os tinha separado. O rei, por sua vez,
devolveu-lhe Briseida e confirmou que lhe daria
todos os presentes prometidos quando da embaixada
à tenda do herói. Estava selada a reconciliação, para
desgraça dos troianos. Aira de Aquiles iria ter, agora,
outro alvo.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A Guerra de Tróia
As origens da guerra de Tróia
Um dia, Hécuba, a esposa do rei de Tróia, teve
um sonho pavoroso; ela, que estava grávida e
em breve daria à luz, acordou de repente no
meio da noite. Logo contou a seu marido Príamo o
pesadelo: sonhara que o filho esperado finalmente
parecia querer sair de seu ventre, mas, ao invés de
uma criança, paria uma tocha. O mais inquietante era
que o fogo acabava por se espalhar pela cidade
inteira, consumindo tudo. O rei tentou em vão
acalmá-la e minimizar aqueles terríveis presságios;
por fim, para não restar dúvidas, dirigiu-se a um de
seus filhos, que sabia como ninguém a arte de
interpretar os sonhos. A resposta que os pais
receberam foi uma horrível notícia e um conselho
tétrico:
— Vai nascer uma criança que causará a ruína de
Tróia! Matem-na assim que nascer!
Pode-se imaginar como o prognóstico destruiu a
tranqüilidade de Príamo e de Hécuba. A criança
finalmente nasceu, Páris, um belo menino, robusto e
de traços encantadores. Que cegueira a dos homens!:
contando de acordo com as luas, segundo um velho
costume, levara dez meses o nascimento de Páris,
assim como dez anos levaria o cerco de Tróia,
terminando com o espantoso parto de guerreiros de
um cavalo de madeira!
Mas Hécuba, mãe, não aceitava a idéia de ver
morto aquele filho e conseguiu fazer com que o
menino fosse abandonado no Ida, uma cadeia de
montanhas e bosques onde certamente ele não
poderia sobreviver. Assim, Páris certamente
morreria, para salvação de toda uma cidade, mas de
uma maneira menos chocante para os pais.
De repente, porém, um acaso muda o curso dos
acontecimentos. Naquele mundo em que os homens
sentiam sempre os deuses se manifestando e
participando dos acontecimentos
cotidianos, era
difícil não ver aí mãos
divinas, precipitando a
ação humana para cumprir
um plano arquitetado
nas alturas. Pastores
encontraram a
criança desprotegida e
destinada à morte e a
recolheram e criaram
como se fosse o filho de
um deles. Prodígio inacreditável:
fora salva da
fome graças a uma ursa,
que foi vista a seu lado
amamentando-o...
Com o passar do tempo, aquele menino cresceu
robusto e se tornou um jovem de valor, que defendia
os rebanhos dos pastores contra o ataque dos ladrões
e das feras. Chamaram-no, então, Alexandre, isto é,
em grego, “o protetor dos homens”. E um belo dia o
jovem voltou para Tróia e revelou quem era, para
surpresa de todo mundo, já que os súditos de Príamo
estavam acostumados a participar anualmente dos
jogos que o pai celebrava em memória do filho
supostamente morto quando criança.
Príamo e sua esposa o receberam muito bem e,
esquecidos daquela profecia sinistra, cumularam
Páris de tudo a que tinha direito o filho de um rei.
Não podiam imaginar o que o Destino já havia
tramado durante a permanência de Páris-Alexandre
entre os pastores do Ida!
Nas montanhas, um dia, Páris tivera de assumir o
papel de juiz num dos julgamentos mais difíceis que
e possa conceber. Tudo começou com Éris, a deusa
Discórdia. Era um monstro horrível de ver, com
serpentes ao invés de cabelos, os olhos em brasa e a
roupa ensangüentada. Estava sempre pronta a lançar
deuses contra deuses, homens contra homens, deuses
contra homens, em suma, a infelicitar a vida de
mortais e imortais com suas intrigas. Um dia, durante
as bodas de Peleu e da ninfa Tétis, os futuros pais do
grande Aquiles, a Discórdia, enraivecida por não ter
sido convidada para a festa, lançou entre as deusas
Hera, Palas Atena e Afrodite, uma maçã de ouro, com
uma inscrição: “À mais bela”.
Uma simples frase causou a maior confusão,
especialmente entre as três belíssimas deusas, que
disputavam acirradamente o título de a mais
formosa. Zeus, desejando pôr fim à discussão,
decidiu organizar uma espécie de concurso de beleza
entre as três rivais. Talvez para evitar ciumeiras e
proteções entre os imortais, determinou que o juiz
seria um ser humano, ninguém menos do que o
também formoso pastor Alexandre-Páris! Mas, com
um mortal falível e divindades dispostas a tudo para
satisfazer a vaidade e não macular a reputação,
aquela disputa não seria das mais imparciais... Cada
uma das deusas prometeu algo ao juiz:
— Você reinará sobre toda a rica Ásia, se me
escolher, - disse Hera, que era casada com o supremo
rei do Olimpo, Zeus.
— Dê-me seu voto e será o mais sábio dos
homens e vencerá todas as batalhas de que participar. -
prometeu, majestosa, Palas Atena, a mais sábia e a
mais guerreira dentre as deusas.
Mas foi a dourada Afrodite, com seu sorriso cheio
de encantos e seus olhos brilhantes, seu doce
perfume e seus gestos delicados, que seduziu o
pastor, tanto mais que prometeu algo equiparável à
maravilha que ele tinha diante de seus olhos:
— A mais bela das mortais, a grega Helena,
mulher de Menelau, compartilhará do seu leito, disse
a deusa do desejo amoroso, sempre doce e amarga ao
mesmo tempo, como costuma ser o amor.
Terminou com a vitória de Afrodite aquele
julgamento, mas não a guerra das deusas nem as suas
conseqüências — pelo contrário, ali Tróia começava
a caminhar para a ruína última e definitiva. O pomo
dourado da Discórdia arruinaria a cidade de Príamo
e levaria a gregos e troianos muitas desgraças,
lágrimas e dores sem conta. As deusas perdedoras,
Hera e Palas Atena, ajudariam, na medida de suas
forças, os inimigos dos troianos na longa guerra entre
exércitos da Europa e da Ásia.
Um dia Páris, acompanhado de um de seus
irmãos, viajou para a cidade de Esparta, pátria de
Menelau, com o objetivo de raptar-lhe a esposa, que
deveria ser sua, segundo a promessa de Afrodite. Foi
recebido com uma hospitalidade digna dos gregos,
numa recepção que unia anfitrião e hóspede em
fortes laços de direitos e deveres mútuos. O marido,
que de nada desconfiava, teve, pouco depois, de
viajar para a ilha de Creta e, acreditando no pacto de
hospitalidade, deixou sua própria esposa encarregada
de tratar bem os troianos.
Helena, diante daquele jovem ainda mais belo por
obra de Afrodite, apaixonou-se e, sabendo dos planos
de Páris, longe de precisar ser levada à força,
resolveu com ele fugir levando seus tesouros. Foi
bem recebida pelo rei Príamo, que não podia
imaginar que desgraça acolhia em seus muros junto
com aquela mulher que a todos encantava. No futuro,
também um cavalo de madeira seria recebido com
alegria e dele nasceria um rastro de destruição e
morte.
Ao saber do que ocorrera, Menelau reclama de
Tróia a esposa, em vão. Furioso e decidido a se
vingar, conclama todos os seus aliados a marchar
contra a cidade, sob o comando de seu irmão
Agamêmnon.
Naquele exército, iam heróis que o mundo jamais
esqueceria: o jovem e impetuoso Aquiles, o arguto
Odisseu, ou Ulisses, tão hábil na ação quanto nas
palavras, e tantos outros. Tróia, também chamada
Ílion, assistiria a dez anos de batalhas em que
combateriam os mais notáveis dentre os gregos e os
troianos, em duelos que tinham muitas vezes alguma
participação divina. Poetas e artistas praticamente do
mundo todo, e em quase todas as épocas,
recordariam inúmeras vezes aquele conflito terrível
entre Europa e Ásia, que até hoje atiça a nossa
imaginação.
Um dia, Hécuba, a esposa do rei de Tróia, teve
um sonho pavoroso; ela, que estava grávida e
em breve daria à luz, acordou de repente no
meio da noite. Logo contou a seu marido Príamo o
pesadelo: sonhara que o filho esperado finalmente
parecia querer sair de seu ventre, mas, ao invés de
uma criança, paria uma tocha. O mais inquietante era
que o fogo acabava por se espalhar pela cidade
inteira, consumindo tudo. O rei tentou em vão
acalmá-la e minimizar aqueles terríveis presságios;
por fim, para não restar dúvidas, dirigiu-se a um de
seus filhos, que sabia como ninguém a arte de
interpretar os sonhos. A resposta que os pais
receberam foi uma horrível notícia e um conselho
tétrico:
— Vai nascer uma criança que causará a ruína de
Tróia! Matem-na assim que nascer!
Pode-se imaginar como o prognóstico destruiu a
tranqüilidade de Príamo e de Hécuba. A criança
finalmente nasceu, Páris, um belo menino, robusto e
de traços encantadores. Que cegueira a dos homens!:
contando de acordo com as luas, segundo um velho
costume, levara dez meses o nascimento de Páris,
assim como dez anos levaria o cerco de Tróia,
terminando com o espantoso parto de guerreiros de
um cavalo de madeira!
Mas Hécuba, mãe, não aceitava a idéia de ver
morto aquele filho e conseguiu fazer com que o
menino fosse abandonado no Ida, uma cadeia de
montanhas e bosques onde certamente ele não
poderia sobreviver. Assim, Páris certamente
morreria, para salvação de toda uma cidade, mas de
uma maneira menos chocante para os pais.
De repente, porém, um acaso muda o curso dos
acontecimentos. Naquele mundo em que os homens
sentiam sempre os deuses se manifestando e
participando dos acontecimentos
cotidianos, era
difícil não ver aí mãos
divinas, precipitando a
ação humana para cumprir
um plano arquitetado
nas alturas. Pastores
encontraram a
criança desprotegida e
destinada à morte e a
recolheram e criaram
como se fosse o filho de
um deles. Prodígio inacreditável:
fora salva da
fome graças a uma ursa,
que foi vista a seu lado
amamentando-o...
Com o passar do tempo, aquele menino cresceu
robusto e se tornou um jovem de valor, que defendia
os rebanhos dos pastores contra o ataque dos ladrões
e das feras. Chamaram-no, então, Alexandre, isto é,
em grego, “o protetor dos homens”. E um belo dia o
jovem voltou para Tróia e revelou quem era, para
surpresa de todo mundo, já que os súditos de Príamo
estavam acostumados a participar anualmente dos
jogos que o pai celebrava em memória do filho
supostamente morto quando criança.
Príamo e sua esposa o receberam muito bem e,
esquecidos daquela profecia sinistra, cumularam
Páris de tudo a que tinha direito o filho de um rei.
Não podiam imaginar o que o Destino já havia
tramado durante a permanência de Páris-Alexandre
entre os pastores do Ida!
Nas montanhas, um dia, Páris tivera de assumir o
papel de juiz num dos julgamentos mais difíceis que
e possa conceber. Tudo começou com Éris, a deusa
Discórdia. Era um monstro horrível de ver, com
serpentes ao invés de cabelos, os olhos em brasa e a
roupa ensangüentada. Estava sempre pronta a lançar
deuses contra deuses, homens contra homens, deuses
contra homens, em suma, a infelicitar a vida de
mortais e imortais com suas intrigas. Um dia, durante
as bodas de Peleu e da ninfa Tétis, os futuros pais do
grande Aquiles, a Discórdia, enraivecida por não ter
sido convidada para a festa, lançou entre as deusas
Hera, Palas Atena e Afrodite, uma maçã de ouro, com
uma inscrição: “À mais bela”.
Uma simples frase causou a maior confusão,
especialmente entre as três belíssimas deusas, que
disputavam acirradamente o título de a mais
formosa. Zeus, desejando pôr fim à discussão,
decidiu organizar uma espécie de concurso de beleza
entre as três rivais. Talvez para evitar ciumeiras e
proteções entre os imortais, determinou que o juiz
seria um ser humano, ninguém menos do que o
também formoso pastor Alexandre-Páris! Mas, com
um mortal falível e divindades dispostas a tudo para
satisfazer a vaidade e não macular a reputação,
aquela disputa não seria das mais imparciais... Cada
uma das deusas prometeu algo ao juiz:
— Você reinará sobre toda a rica Ásia, se me
escolher, - disse Hera, que era casada com o supremo
rei do Olimpo, Zeus.
— Dê-me seu voto e será o mais sábio dos
homens e vencerá todas as batalhas de que participar. -
prometeu, majestosa, Palas Atena, a mais sábia e a
mais guerreira dentre as deusas.
Mas foi a dourada Afrodite, com seu sorriso cheio
de encantos e seus olhos brilhantes, seu doce
perfume e seus gestos delicados, que seduziu o
pastor, tanto mais que prometeu algo equiparável à
maravilha que ele tinha diante de seus olhos:
— A mais bela das mortais, a grega Helena,
mulher de Menelau, compartilhará do seu leito, disse
a deusa do desejo amoroso, sempre doce e amarga ao
mesmo tempo, como costuma ser o amor.
Terminou com a vitória de Afrodite aquele
julgamento, mas não a guerra das deusas nem as suas
conseqüências — pelo contrário, ali Tróia começava
a caminhar para a ruína última e definitiva. O pomo
dourado da Discórdia arruinaria a cidade de Príamo
e levaria a gregos e troianos muitas desgraças,
lágrimas e dores sem conta. As deusas perdedoras,
Hera e Palas Atena, ajudariam, na medida de suas
forças, os inimigos dos troianos na longa guerra entre
exércitos da Europa e da Ásia.
Um dia Páris, acompanhado de um de seus
irmãos, viajou para a cidade de Esparta, pátria de
Menelau, com o objetivo de raptar-lhe a esposa, que
deveria ser sua, segundo a promessa de Afrodite. Foi
recebido com uma hospitalidade digna dos gregos,
numa recepção que unia anfitrião e hóspede em
fortes laços de direitos e deveres mútuos. O marido,
que de nada desconfiava, teve, pouco depois, de
viajar para a ilha de Creta e, acreditando no pacto de
hospitalidade, deixou sua própria esposa encarregada
de tratar bem os troianos.
Helena, diante daquele jovem ainda mais belo por
obra de Afrodite, apaixonou-se e, sabendo dos planos
de Páris, longe de precisar ser levada à força,
resolveu com ele fugir levando seus tesouros. Foi
bem recebida pelo rei Príamo, que não podia
imaginar que desgraça acolhia em seus muros junto
com aquela mulher que a todos encantava. No futuro,
também um cavalo de madeira seria recebido com
alegria e dele nasceria um rastro de destruição e
morte.
Ao saber do que ocorrera, Menelau reclama de
Tróia a esposa, em vão. Furioso e decidido a se
vingar, conclama todos os seus aliados a marchar
contra a cidade, sob o comando de seu irmão
Agamêmnon.
Naquele exército, iam heróis que o mundo jamais
esqueceria: o jovem e impetuoso Aquiles, o arguto
Odisseu, ou Ulisses, tão hábil na ação quanto nas
palavras, e tantos outros. Tróia, também chamada
Ílion, assistiria a dez anos de batalhas em que
combateriam os mais notáveis dentre os gregos e os
troianos, em duelos que tinham muitas vezes alguma
participação divina. Poetas e artistas praticamente do
mundo todo, e em quase todas as épocas,
recordariam inúmeras vezes aquele conflito terrível
entre Europa e Ásia, que até hoje atiça a nossa
imaginação.
terça-feira, 8 de junho de 2010
A História de Teseu
A história de Teseu e das aventuras extraordinárias vividas por esse herói constituem algumas das mais interessantes páginas da Mitologia grega.
Nascido em Trezendo e educado por Etra, sua mãe, desde muito pequeno Teseu revelou grande valor e coragem. Contava apenas sete anos de idade, quando Hércules, que ele tomaria como modelo, foi visitar a sua cidade, sendo recebido com especiais homenagens, inclusive um grande banquete.
Para ficar instalado com mais conforto à mesa do festim, Hércules despiu a pele de leão com que habitualmente se cobria, deixando-a no chão. As crianças, muito naturalmente, sentiam-se atraídas pela figura do gigante sobre o qual tanta coisa se falava, e aproximavam-se, desejosas de contemplar de perto o grande homem.
Deparando com a pele de leão, assustavam-se e fugiam.
Teseu, porém, não imitou os seus companheiros. Convencido de estar diante de um leão de verdade, um leão vivo, arrancou a clave de um escravo que se encontrava próximo e marchou, decidido, contra a "fera"...
A coragem e a decisão da criança provocaram aplausos e Hércules vaticinou-lhe um brilhante futuro. Ao atingir a adolescência, armado com uma espada que fora de seu pai, Teseu transportou-se a Atenas, de cujo trono era herdeiro, na sua qualidade de filho de Egeu.
Entendeu ele, porém, que antes de dar-se a conhecer e reclamar o poder, deveria fazer-se digno de tão alta honraria, realizando trabalhos que o dignificassem e causassem admiração aos seus contemporâneos. Começou para ele, então, uma fase de grandes aventuras. A primeira teve por cenário a Ática, que estava infestada por terríveis bandidos chefiados por um certo Silis ou Cercion — homem de grande força e maior crueldade.
Para dar uma idéia da poderosa força do bandido é bastante dizer que ele estraçalhava com as mãos as mais fortes feras da floresta e fazia vergar o tronco das árvores. Aliás uma das principais "distrações" do cruel bandido, ao dobrar as árvores, era amarrar nas copas das mesmas os seus inimigos e, em seguida, soltar, repentinamente a árvore, despedaçando, assim, o infeliz que se encontrava amarrado no topo.
Teseu procurou o bandido, deu-lhe combate e sem maiores dificuldades, matou-o. Teve, então, que isolar-se, a fim de purificar-se do sangue que derramara, para o que realizou grandes sacrifícios diante do altar de Zeus.
Quando se considerou limpo daquele sangue imundo, o herói demandou a cidade de Atenas onde a confusão era geral. A cidade estava sendo governada, em nome de Egeu, por uma feiticeira chamada Medéia, que, sabedora da sua presença, planejou envenená-lo, ou melhor, concebeu o sinistro projeto de fazer com que fosse envenenado pelo próprio pai. Para isso convenceu Egeu, que não podia saber que o jovem era seu filho, pois não o via há muito tempo, a convidar o moço para um dos banquetes que comumente oferecia.
Quando Teseu ia levar aos lábios a taça em que se encontrava vinho envenenado, algo de imprevisto aconteceu. Egeu reconheceu a espada que Teseu trazia. Só poderia ser seu filho quem a portava. Num gesto rápido, afastou do moço a taça fatal e, furioso, expulsou Medéia da cidade, ordenando-lhe que nunca mais aparecesse, sob pena de ser morta.
Mas o Rei Egeu tinha um irmão, chamado Palas, que possuía vários filhos. Sentiu-se, ele, prejudicado pela presença de Teseu, que fazia ruir os belos planos que vinha arquitetando para apoderar-se do governo da cidade.
Por isso planejou uma conspiração destinada a perder definitivamente o jovem Teseu. Mas o plano foi descoberto e Teseu matou Palas e seus filhos. Teve, então, segundo o costume da época, de afastar-se de Atenas durante um ano, findo o qual regressou para ser julgado pelo tribunal que se reunia no templo de Apolo.
Os juizes estudaram o procedimento de Teseu, as circunstâncias, os fatos, as conseqüências e absolveram o jovem. Por esse tempo Atenas vivia torturada pelo pesado tributo em vidas humanas que se via obrigada a pagar a Minos, rei de Creta.
O caso é que um filho de Minos, Androgeu, que fora a Atenas participar de certos jogos, vencendo-os, despertara a inveja e o ciúme de muitos jovens atenienses que, despeitados, o assassinaram. Minos, muito naturalmente, ficou indignado com o fato, resolvendo impor aos atenienses um severo castigo.
Eles deveriam, cada ano, enviar sete rapazes e sete moças, escolhidos mediante sorteio, para alimentarem o Minotauro — furioso animal, metade homem, metade touro — que vivia encerrado no Labirinto.
Esse Labirinto, um dos caprichos do Rei Minos, era um estranho palácio repleto de corredores, curvas, caminhos e encruzilhadas, onde uma pessoa se perdia, jamais conseguindo encontrar a saída depois de transpor a sua entrada. Era aí que ficava encerrado o terrível Minotauro, que espumava e bramia, jamais se fartando de carne humana.
Havia três anos que Atenas pagava o pesado tributo e suas melhores famílias choravam a perda de seus filhos. Teseu resolveu preparar-se para enfrentar o monstro, oferecendo sacrifícios aos deuses e indo consultar o oráculo de Delfos. Invocado o deus, a pitonisa informou a Teseu que ele resolveria o caso desde que fosse amparado pelo amor...
- Eu vou, meu pai. Só eu posso dar fim a esse horror!
Cansado dessas mortes inúteis, Teseu resolve tomar o lugar de uma das vítimas e, se puder, matar a terrível criatura. Egeu acaba cedendo:
– Então, vá. Mas, se você voltar são e salvo, troque a vela negra do navio por uma branca. Assim, vendo o barco, eu já de longe fico sabendo que você está vivo.
Teseu promete obedecer ao pai e embarca para Creta.
Encorajado, Teseu fêz-se incluir entre os jovens que deveriam partir na próxima leva de "carne para o Minotauro". Ao chegar a Creta adquiriu a certeza de que sairia vitorioso, pois a profecia do oráculo começou a realizar-se.
Quando chegou à Creta, Minos ridicularizou a sua afirmação de ser filho de Poseidon, e desafiou-o a recobrar um anel atirado ao mar. Teseu recebeu das ninfas do mar não apenas o anel, mas também a coroa dourada de Tétis.
Durante toda a noite, Teseu esforça-se para tranqüilizar seus companheiros. De repente, anunciam ao jovem príncipe ateniense que alguém quer falar com ele. Muito surpreso, Teseu vê entrar uma bela moça, que ele já viu ao lado do trono de Minos. Ela lhe diz:
– Jovem estrangeiro, eu me chamo Ariadne e sou a filha do rei Minos. Quando vi seu ar decidido, compreendi que você veio para matar o Minotauro. Mas será que já pensou numa coisa? Mesmo que mate o monstro, nunca vai conseguir sair do Labirinto...
Teseu fica confuso, pois Ariadne tem razão. Ele não pensou nesse problema!
Percebendo o constrangimento do rapaz, ela acrescenta:
– Desde que o vi, fiquei interessada por você. Estou disposta a ajudá-lo se, depois, você se casar comigo e me levar para Atenas.
Assim fica combinado.
Com efeito, a linda Ariadne, filha do poderoso Minos, apaixonou-se por Teseu e combinou com ele um meio de encontrar a saída do terrível labirinto. Um meio bastante simples: apenas um novelo de lã, e lhe deu uma espada para que ele matasse o Miotauro.
Ariadne ficaria à entrada do palácio, segurando o novelo que Teseu iria desenrolando à medida que fosse avançando pelo labirinto. Para voltar ao ponto de partida, teria, apenas, que ir seguindo o fio que Ariadne seguraria firmemente. Estava resolvido, pois, um dos mais graves problemas da empresa e, resoluto, Teseu avançou.
Cheio de coragem penetrou nos sombrios corredores do soturno labirinto. A fera, mal pressentiu a chegada do moço, avançou, furiosa, fazendo tremer todo o palácio com a sua cólera. Calmo e sereno, Teseu esperou a sua arremetida. E então, de um só golpe, decepou-lhe a cabeça com a espada que Ariadne lhe deu.
Quando fica sabendo do que aconteceu, o rei Minos enfurece-se e ordena à frota que impeça a fuga. Os navios que ainda estão em condições de navegar tentam bloquear o barco grego, e começa uma batalha naval. Mas, com o cair da noite, Teseu aproveita-se da escuridão e consegue escapar esgueirando-se entre as naus inimigas.
Vitorioso, Teseu partiu de Creta, levando em sua companhia a doce e linda Ariadne, regressando a Atenas.
Alguns dias depois, o navio chega à ilha de Naxo. Teseu resolve fazer uma escala para reabastecimento. Vaidoso com a vitória, só tem um pensamento na cabeça: a glória que encontrará em Atenas. Imaginando sua volta triunfal, os gritos de alegria e de reconhecimento da multidão que virá aclamá-lo, apressa-se em partir. Dá ordem de levantar âncora, esquecendo Ariadne, que fica adormecida na praia.
Quando desperta, a princesa vê o navio já ao longe, quase desaparecendo no horizonte. Só lhe resta lamentar sua triste sina.
Bem, essa parte sa história é contada de diferentes maneiras. Uma das versões diz que Teseu abandonou Ariadne por ondem da deusa Athena. Ela dormiu e ele foi embora sem ela, mas o deus Dionísio a encontrou e a confortou, e dela se enamorou, fazendo-a chefe das suas seguidoras. A outra versão é bem mais favorável a Teseu. Ariadne estava com muito enjôo por causa do movimento do mar, e ele a deixou na beira da praia para que ela pudesse se recuperar, enquanto voltou ao barco para fazer alguns reparos. Um vento muito violento carregou o barco para o mar e o manteve lá por bastante tempo. Quando Teseu voltou, encontrou Ariadne morta, e ficou completamente desesperado.
Enquanto isso, Teseu aproxima-se de Atenas. Está tão entretido com seus sonhos de glória que também esquece de, conforme prometeu ao pai, trocar a vela negra por uma branca.
Desde a partida do filho, o velho Egeu não teve um único momento de repouso. Todos os dias, subia à Acrópole e ficava olhando as ondas, esperando avistar o navio com a vela branca. Pobre Egeu! Quando o barco enfim aparece, está com a vela preta. Certo de que Teseu está morto, o rei desespera-se e quer morrer também. Joga-se ao mar e afoga-se. Por isso, desde esse tempo o grande mar que banha a Grécia chama-se mar Egeu.
Dizem que durante o seu reinado ele unificou a Ática, e criou leis para as três classes de proprietários de terras, agricultores e artesãos. Ficou famoso pela sua proteção aos servos e escravos espezinhados, para quem o seu túmulo continuou sendo um santuário ao longo da História. Pirítoo, rei dos Lápitas, pilhou o seu gado, como um desafio, mas os jovens guerreiros simpatizaram um com o outro, no campo de batalha, e juraram amizade eterna. Teseu tomou parte na Caçada ao Javalí da Caledônia, e na batalha dos Pápitas e dos centauros, e dizem que emulou os feitos de Héracles (Hércules). Numa incursão contra as amazonas, raptou Hipólita, a rainha. Mais tarde, como vingança, o povo dela invadiu a Ática; mas Hipólita foi para o campo de batalha ao lado de Teseu e morreu com uma flechada. Antes disso, contudo, tivera dele um filho, Hipólito.
Após a morte dela, Teseu mandou buscar a filha mais moça do rei Minos, Fedra, e casou-se com ela. A esta altura Hipólito já era um jovem belo e forte, dedicado à equitação e ao casto culto de Ártemis, a divindade tutelar de sua mãe. Não demorou para que Fedra se apaixonasse desesperadamente por ele, e enviasse a sua velha ama para relatar ao jovem a sua paixão. Após a recusa chocada de Hipólito, ela se enforcou, deixando uma carta em que o acusava de estuprá-la. Teseu, convencido da versão da mulher pela sua morte, expulsou o filho de casa e invocou a maldição mortal confiada a ele por seu pai, Poseidon. Enquanto Hipólito guiava o seu coche pela estrada rochosa do litoral, o deus enviou uma onda gigantesca, carregando na crista um touro-marinho, que fez estourar os cavalos. O corpo esmagado de Hipólito foi devolvido a Teseu, que só viera a saber da verdade tarde demais.
Daí por diante, a sorte de Teseu o abandonou.Ao lado do amigo Pirítoo, raptou Helena de Esparta, mais tarde resgatada por seus irmãos Castor e Pólux. Enquanto ajudava Pirítoo na tentativa de rapto de Perséfone, ficou confinado no submundo, em sofrimento, durante quatro anos, ao fim dos quais Héracles o libertou. Ao voltar para Atenas, encontrou-a mergulhada na desordem e na sedição. Não conseguindo restabelecer a lei na cidade, amaldiçoou-a e partiu para Creta. No caminho, parou em Ciros, onde, atraiçoado por seu anfitrião, caiu ao mar do alto de um penhasco."
Depois de sua morte, porém, os atenienses, arrependidos, foram a Ciros buscar suas cinzas e ergueram-lhe um templo magnífico.
Este Mito, que tem sido objeto de investigações dos historiadores, parece indicar que Atenas, durante muito tempo, esteve dominada pelos reis de Creta, que lhe exigiam pesados tributos. O episódio de Teseu e do Minotauro deve indicar uma revolução que libertou os atenienses.
Escavações realizadas na ilha de Creta, no início do século, revelaram a existência de um grande palácio provido de imensos corredores que lembravam um labirinto. Por outro lado, afirmam os especialistas que existem elementos que permitem dizer que os reis de Creta usavam, em certas festas e cerimônias religiosas, máscaras representando cabeças de touros...
Nascido em Trezendo e educado por Etra, sua mãe, desde muito pequeno Teseu revelou grande valor e coragem. Contava apenas sete anos de idade, quando Hércules, que ele tomaria como modelo, foi visitar a sua cidade, sendo recebido com especiais homenagens, inclusive um grande banquete.
Para ficar instalado com mais conforto à mesa do festim, Hércules despiu a pele de leão com que habitualmente se cobria, deixando-a no chão. As crianças, muito naturalmente, sentiam-se atraídas pela figura do gigante sobre o qual tanta coisa se falava, e aproximavam-se, desejosas de contemplar de perto o grande homem.
Deparando com a pele de leão, assustavam-se e fugiam.
Teseu, porém, não imitou os seus companheiros. Convencido de estar diante de um leão de verdade, um leão vivo, arrancou a clave de um escravo que se encontrava próximo e marchou, decidido, contra a "fera"...
A coragem e a decisão da criança provocaram aplausos e Hércules vaticinou-lhe um brilhante futuro. Ao atingir a adolescência, armado com uma espada que fora de seu pai, Teseu transportou-se a Atenas, de cujo trono era herdeiro, na sua qualidade de filho de Egeu.
Entendeu ele, porém, que antes de dar-se a conhecer e reclamar o poder, deveria fazer-se digno de tão alta honraria, realizando trabalhos que o dignificassem e causassem admiração aos seus contemporâneos. Começou para ele, então, uma fase de grandes aventuras. A primeira teve por cenário a Ática, que estava infestada por terríveis bandidos chefiados por um certo Silis ou Cercion — homem de grande força e maior crueldade.
Para dar uma idéia da poderosa força do bandido é bastante dizer que ele estraçalhava com as mãos as mais fortes feras da floresta e fazia vergar o tronco das árvores. Aliás uma das principais "distrações" do cruel bandido, ao dobrar as árvores, era amarrar nas copas das mesmas os seus inimigos e, em seguida, soltar, repentinamente a árvore, despedaçando, assim, o infeliz que se encontrava amarrado no topo.
Teseu procurou o bandido, deu-lhe combate e sem maiores dificuldades, matou-o. Teve, então, que isolar-se, a fim de purificar-se do sangue que derramara, para o que realizou grandes sacrifícios diante do altar de Zeus.
Quando se considerou limpo daquele sangue imundo, o herói demandou a cidade de Atenas onde a confusão era geral. A cidade estava sendo governada, em nome de Egeu, por uma feiticeira chamada Medéia, que, sabedora da sua presença, planejou envenená-lo, ou melhor, concebeu o sinistro projeto de fazer com que fosse envenenado pelo próprio pai. Para isso convenceu Egeu, que não podia saber que o jovem era seu filho, pois não o via há muito tempo, a convidar o moço para um dos banquetes que comumente oferecia.
Quando Teseu ia levar aos lábios a taça em que se encontrava vinho envenenado, algo de imprevisto aconteceu. Egeu reconheceu a espada que Teseu trazia. Só poderia ser seu filho quem a portava. Num gesto rápido, afastou do moço a taça fatal e, furioso, expulsou Medéia da cidade, ordenando-lhe que nunca mais aparecesse, sob pena de ser morta.
Mas o Rei Egeu tinha um irmão, chamado Palas, que possuía vários filhos. Sentiu-se, ele, prejudicado pela presença de Teseu, que fazia ruir os belos planos que vinha arquitetando para apoderar-se do governo da cidade.
Por isso planejou uma conspiração destinada a perder definitivamente o jovem Teseu. Mas o plano foi descoberto e Teseu matou Palas e seus filhos. Teve, então, segundo o costume da época, de afastar-se de Atenas durante um ano, findo o qual regressou para ser julgado pelo tribunal que se reunia no templo de Apolo.
Os juizes estudaram o procedimento de Teseu, as circunstâncias, os fatos, as conseqüências e absolveram o jovem. Por esse tempo Atenas vivia torturada pelo pesado tributo em vidas humanas que se via obrigada a pagar a Minos, rei de Creta.
O caso é que um filho de Minos, Androgeu, que fora a Atenas participar de certos jogos, vencendo-os, despertara a inveja e o ciúme de muitos jovens atenienses que, despeitados, o assassinaram. Minos, muito naturalmente, ficou indignado com o fato, resolvendo impor aos atenienses um severo castigo.
Eles deveriam, cada ano, enviar sete rapazes e sete moças, escolhidos mediante sorteio, para alimentarem o Minotauro — furioso animal, metade homem, metade touro — que vivia encerrado no Labirinto.
Esse Labirinto, um dos caprichos do Rei Minos, era um estranho palácio repleto de corredores, curvas, caminhos e encruzilhadas, onde uma pessoa se perdia, jamais conseguindo encontrar a saída depois de transpor a sua entrada. Era aí que ficava encerrado o terrível Minotauro, que espumava e bramia, jamais se fartando de carne humana.
Havia três anos que Atenas pagava o pesado tributo e suas melhores famílias choravam a perda de seus filhos. Teseu resolveu preparar-se para enfrentar o monstro, oferecendo sacrifícios aos deuses e indo consultar o oráculo de Delfos. Invocado o deus, a pitonisa informou a Teseu que ele resolveria o caso desde que fosse amparado pelo amor...
- Eu vou, meu pai. Só eu posso dar fim a esse horror!
Cansado dessas mortes inúteis, Teseu resolve tomar o lugar de uma das vítimas e, se puder, matar a terrível criatura. Egeu acaba cedendo:
– Então, vá. Mas, se você voltar são e salvo, troque a vela negra do navio por uma branca. Assim, vendo o barco, eu já de longe fico sabendo que você está vivo.
Teseu promete obedecer ao pai e embarca para Creta.
Encorajado, Teseu fêz-se incluir entre os jovens que deveriam partir na próxima leva de "carne para o Minotauro". Ao chegar a Creta adquiriu a certeza de que sairia vitorioso, pois a profecia do oráculo começou a realizar-se.
Quando chegou à Creta, Minos ridicularizou a sua afirmação de ser filho de Poseidon, e desafiou-o a recobrar um anel atirado ao mar. Teseu recebeu das ninfas do mar não apenas o anel, mas também a coroa dourada de Tétis.
Durante toda a noite, Teseu esforça-se para tranqüilizar seus companheiros. De repente, anunciam ao jovem príncipe ateniense que alguém quer falar com ele. Muito surpreso, Teseu vê entrar uma bela moça, que ele já viu ao lado do trono de Minos. Ela lhe diz:
– Jovem estrangeiro, eu me chamo Ariadne e sou a filha do rei Minos. Quando vi seu ar decidido, compreendi que você veio para matar o Minotauro. Mas será que já pensou numa coisa? Mesmo que mate o monstro, nunca vai conseguir sair do Labirinto...
Teseu fica confuso, pois Ariadne tem razão. Ele não pensou nesse problema!
Percebendo o constrangimento do rapaz, ela acrescenta:
– Desde que o vi, fiquei interessada por você. Estou disposta a ajudá-lo se, depois, você se casar comigo e me levar para Atenas.
Assim fica combinado.
Com efeito, a linda Ariadne, filha do poderoso Minos, apaixonou-se por Teseu e combinou com ele um meio de encontrar a saída do terrível labirinto. Um meio bastante simples: apenas um novelo de lã, e lhe deu uma espada para que ele matasse o Miotauro.
Ariadne ficaria à entrada do palácio, segurando o novelo que Teseu iria desenrolando à medida que fosse avançando pelo labirinto. Para voltar ao ponto de partida, teria, apenas, que ir seguindo o fio que Ariadne seguraria firmemente. Estava resolvido, pois, um dos mais graves problemas da empresa e, resoluto, Teseu avançou.
Cheio de coragem penetrou nos sombrios corredores do soturno labirinto. A fera, mal pressentiu a chegada do moço, avançou, furiosa, fazendo tremer todo o palácio com a sua cólera. Calmo e sereno, Teseu esperou a sua arremetida. E então, de um só golpe, decepou-lhe a cabeça com a espada que Ariadne lhe deu.
Quando fica sabendo do que aconteceu, o rei Minos enfurece-se e ordena à frota que impeça a fuga. Os navios que ainda estão em condições de navegar tentam bloquear o barco grego, e começa uma batalha naval. Mas, com o cair da noite, Teseu aproveita-se da escuridão e consegue escapar esgueirando-se entre as naus inimigas.
Vitorioso, Teseu partiu de Creta, levando em sua companhia a doce e linda Ariadne, regressando a Atenas.
Alguns dias depois, o navio chega à ilha de Naxo. Teseu resolve fazer uma escala para reabastecimento. Vaidoso com a vitória, só tem um pensamento na cabeça: a glória que encontrará em Atenas. Imaginando sua volta triunfal, os gritos de alegria e de reconhecimento da multidão que virá aclamá-lo, apressa-se em partir. Dá ordem de levantar âncora, esquecendo Ariadne, que fica adormecida na praia.
Quando desperta, a princesa vê o navio já ao longe, quase desaparecendo no horizonte. Só lhe resta lamentar sua triste sina.
Bem, essa parte sa história é contada de diferentes maneiras. Uma das versões diz que Teseu abandonou Ariadne por ondem da deusa Athena. Ela dormiu e ele foi embora sem ela, mas o deus Dionísio a encontrou e a confortou, e dela se enamorou, fazendo-a chefe das suas seguidoras. A outra versão é bem mais favorável a Teseu. Ariadne estava com muito enjôo por causa do movimento do mar, e ele a deixou na beira da praia para que ela pudesse se recuperar, enquanto voltou ao barco para fazer alguns reparos. Um vento muito violento carregou o barco para o mar e o manteve lá por bastante tempo. Quando Teseu voltou, encontrou Ariadne morta, e ficou completamente desesperado.
Enquanto isso, Teseu aproxima-se de Atenas. Está tão entretido com seus sonhos de glória que também esquece de, conforme prometeu ao pai, trocar a vela negra por uma branca.
Desde a partida do filho, o velho Egeu não teve um único momento de repouso. Todos os dias, subia à Acrópole e ficava olhando as ondas, esperando avistar o navio com a vela branca. Pobre Egeu! Quando o barco enfim aparece, está com a vela preta. Certo de que Teseu está morto, o rei desespera-se e quer morrer também. Joga-se ao mar e afoga-se. Por isso, desde esse tempo o grande mar que banha a Grécia chama-se mar Egeu.
Dizem que durante o seu reinado ele unificou a Ática, e criou leis para as três classes de proprietários de terras, agricultores e artesãos. Ficou famoso pela sua proteção aos servos e escravos espezinhados, para quem o seu túmulo continuou sendo um santuário ao longo da História. Pirítoo, rei dos Lápitas, pilhou o seu gado, como um desafio, mas os jovens guerreiros simpatizaram um com o outro, no campo de batalha, e juraram amizade eterna. Teseu tomou parte na Caçada ao Javalí da Caledônia, e na batalha dos Pápitas e dos centauros, e dizem que emulou os feitos de Héracles (Hércules). Numa incursão contra as amazonas, raptou Hipólita, a rainha. Mais tarde, como vingança, o povo dela invadiu a Ática; mas Hipólita foi para o campo de batalha ao lado de Teseu e morreu com uma flechada. Antes disso, contudo, tivera dele um filho, Hipólito.
Após a morte dela, Teseu mandou buscar a filha mais moça do rei Minos, Fedra, e casou-se com ela. A esta altura Hipólito já era um jovem belo e forte, dedicado à equitação e ao casto culto de Ártemis, a divindade tutelar de sua mãe. Não demorou para que Fedra se apaixonasse desesperadamente por ele, e enviasse a sua velha ama para relatar ao jovem a sua paixão. Após a recusa chocada de Hipólito, ela se enforcou, deixando uma carta em que o acusava de estuprá-la. Teseu, convencido da versão da mulher pela sua morte, expulsou o filho de casa e invocou a maldição mortal confiada a ele por seu pai, Poseidon. Enquanto Hipólito guiava o seu coche pela estrada rochosa do litoral, o deus enviou uma onda gigantesca, carregando na crista um touro-marinho, que fez estourar os cavalos. O corpo esmagado de Hipólito foi devolvido a Teseu, que só viera a saber da verdade tarde demais.
Daí por diante, a sorte de Teseu o abandonou.Ao lado do amigo Pirítoo, raptou Helena de Esparta, mais tarde resgatada por seus irmãos Castor e Pólux. Enquanto ajudava Pirítoo na tentativa de rapto de Perséfone, ficou confinado no submundo, em sofrimento, durante quatro anos, ao fim dos quais Héracles o libertou. Ao voltar para Atenas, encontrou-a mergulhada na desordem e na sedição. Não conseguindo restabelecer a lei na cidade, amaldiçoou-a e partiu para Creta. No caminho, parou em Ciros, onde, atraiçoado por seu anfitrião, caiu ao mar do alto de um penhasco."
Depois de sua morte, porém, os atenienses, arrependidos, foram a Ciros buscar suas cinzas e ergueram-lhe um templo magnífico.
Este Mito, que tem sido objeto de investigações dos historiadores, parece indicar que Atenas, durante muito tempo, esteve dominada pelos reis de Creta, que lhe exigiam pesados tributos. O episódio de Teseu e do Minotauro deve indicar uma revolução que libertou os atenienses.
Escavações realizadas na ilha de Creta, no início do século, revelaram a existência de um grande palácio provido de imensos corredores que lembravam um labirinto. Por outro lado, afirmam os especialistas que existem elementos que permitem dizer que os reis de Creta usavam, em certas festas e cerimônias religiosas, máscaras representando cabeças de touros...
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Teseu e o Minotauro, Dédalo e Ícaro
Na ilha de Creta reinava Minos. Um dia,
Possêidon enviou-lhe, surgido do mar, um
touro, que o rei lhe deveria sacrificar. Minos,
porém, guardou para si o animal. Aesposa de Minos,
Pasífae, apaixonou-se pelo animal. Essa paixão deve
ter sido uma vingança de Possêidon, o rei do mar, ou
de Afrodite, a deusa do amor, de cujo culto a rainha
tinha descuidado.
Vivia em Creta um célebre arquiteto, escultor e
inventor, Dédalo. Foi esse homem quem construiu
para Pasífae uma novilha de bronze, oca, para que a
rainha, pondo-se em seu interior, pudesse atrair o
touro. Assim Pasífae se uniu àquele animal. Da união
nasceria um monstruoso homem com cabeça de
touro — o Minotauro.
Quando nasceu o filho de Pasífae e do touro,
Minos, envergonhado, fez com que Dédalo
construísse um labirinto para aí deixar aquela criança
monstruosa. Com seus inúmeros corredores, salas e
galerias, criados de maneira a fazer perder a direção
e confundir até o mais astuto dos homens, o labirinto
só era dominado pelo próprio Dédalo: quem ali
entrasse, não conseguiria mais sair.
Com o passar dos anos, o Minotauro foi
crescendo no labirinto, longe dos olhares das
pessoas. Ora, Minos, tendo derrotado os atenienses
em batalha, exigiu deles um tributo sinistro: todos os
anos, Atenas deveria enviar sete rapazes e sete moças
para serem devorados pelo Minotauro. Pode-se
imaginar o terror que deveria se apossar de quem,
perdido na confusão dos caminhos tortuosos, sentia
aproximar-se de si aquela criatura grotesca que
habitava o labirinto... Disposto a pôr um fim a essa
situação, o herói ateniense Teseu foi um dia a Creta,
junto com os outros jovens destinados à morte certa.
Quando Teseu chegou à ilha, Ariadne, filha de
Minos e Pasífae, apaixonou-se pelo jovem.
Desejando salvá-lo da morte no labirinto, a moça lhe
deu um novelo com um fio: Teseu deveria desenrolálo
à medida que penetrasse naquele emaranhado.
Quem tivera a idéia fora Dédalo. Foi assim que o
herói, depois de matar o Minotauro, encontrou
facilmente a saída, seguindo o caminho criado pelo
fio de Ariadne.
Ao saber do que ocorrera, Minos, enfurecido,
aprisionou Dédalo e seu filho Ícaro no labirinto, pois
julgava que o arquiteto tinha sido cúmplice daquela
traição. Haveria de ser a morte para os dois, se
Dédalo, sempre astucioso e inventivo, não tivesse
encontrado um meio de escapar. Fez, com penas de
aves coladas com cera, um par de asas para si e outro
para o filho.
Antes de saírem por uma das altas janelas do
labirinto, Dédalo fez uma recomendação a Ícaro.
Que ele, sob hipótese alguma, se aproximasse do sol;
deveria voar nem muito alto nem muito baixo, entre
o céu e a terra. Partiram.
Mas Ícaro não obedeceu ao conselho paterno.
Chegando demasiado perto do sol, a cera das asas
derreteu, e as penas dispersaram-se nos ares. De
repente o moço se viu agitando braços nus.
Chamando em vão pelo pai, Ícaro caiu nas águas
azuis do mar Egeu
Possêidon enviou-lhe, surgido do mar, um
touro, que o rei lhe deveria sacrificar. Minos,
porém, guardou para si o animal. Aesposa de Minos,
Pasífae, apaixonou-se pelo animal. Essa paixão deve
ter sido uma vingança de Possêidon, o rei do mar, ou
de Afrodite, a deusa do amor, de cujo culto a rainha
tinha descuidado.
Vivia em Creta um célebre arquiteto, escultor e
inventor, Dédalo. Foi esse homem quem construiu
para Pasífae uma novilha de bronze, oca, para que a
rainha, pondo-se em seu interior, pudesse atrair o
touro. Assim Pasífae se uniu àquele animal. Da união
nasceria um monstruoso homem com cabeça de
touro — o Minotauro.
Quando nasceu o filho de Pasífae e do touro,
Minos, envergonhado, fez com que Dédalo
construísse um labirinto para aí deixar aquela criança
monstruosa. Com seus inúmeros corredores, salas e
galerias, criados de maneira a fazer perder a direção
e confundir até o mais astuto dos homens, o labirinto
só era dominado pelo próprio Dédalo: quem ali
entrasse, não conseguiria mais sair.
Com o passar dos anos, o Minotauro foi
crescendo no labirinto, longe dos olhares das
pessoas. Ora, Minos, tendo derrotado os atenienses
em batalha, exigiu deles um tributo sinistro: todos os
anos, Atenas deveria enviar sete rapazes e sete moças
para serem devorados pelo Minotauro. Pode-se
imaginar o terror que deveria se apossar de quem,
perdido na confusão dos caminhos tortuosos, sentia
aproximar-se de si aquela criatura grotesca que
habitava o labirinto... Disposto a pôr um fim a essa
situação, o herói ateniense Teseu foi um dia a Creta,
junto com os outros jovens destinados à morte certa.
Quando Teseu chegou à ilha, Ariadne, filha de
Minos e Pasífae, apaixonou-se pelo jovem.
Desejando salvá-lo da morte no labirinto, a moça lhe
deu um novelo com um fio: Teseu deveria desenrolálo
à medida que penetrasse naquele emaranhado.
Quem tivera a idéia fora Dédalo. Foi assim que o
herói, depois de matar o Minotauro, encontrou
facilmente a saída, seguindo o caminho criado pelo
fio de Ariadne.
Ao saber do que ocorrera, Minos, enfurecido,
aprisionou Dédalo e seu filho Ícaro no labirinto, pois
julgava que o arquiteto tinha sido cúmplice daquela
traição. Haveria de ser a morte para os dois, se
Dédalo, sempre astucioso e inventivo, não tivesse
encontrado um meio de escapar. Fez, com penas de
aves coladas com cera, um par de asas para si e outro
para o filho.
Antes de saírem por uma das altas janelas do
labirinto, Dédalo fez uma recomendação a Ícaro.
Que ele, sob hipótese alguma, se aproximasse do sol;
deveria voar nem muito alto nem muito baixo, entre
o céu e a terra. Partiram.
Mas Ícaro não obedeceu ao conselho paterno.
Chegando demasiado perto do sol, a cera das asas
derreteu, e as penas dispersaram-se nos ares. De
repente o moço se viu agitando braços nus.
Chamando em vão pelo pai, Ícaro caiu nas águas
azuis do mar Egeu
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Orfeu e Eurídice
Fugindo de um homem que a perseguia, a ninfa
Eurídice pisou numa serpente venenosa oculta
na relva.
O réptil a picou no calcanhar, e ela
desceu ao reino dos mortos, deixando inconsolável
seu marido.
Orfeu, poeta, músico e cantor, sempre
empunhando a lira ou a cítara, era um artista
insuperável. Com seu canto, os animais ferozes se
tornavam pacíficos e o seguiam, as rochas se
moviam, as árvores inclinavam as copas em sua
direção, os homens se acalmavam. Mas a dor pela
perda da esposa foi tal que ele, fugindo do convívio
humano, na solidão, só conseguia pensar em
Eurídice. Sua música, agora triste, só cantava o amor
por Eurídice.
Por fim, resolveu descer ao sombrio
Hades para tentar trazê-la de volta.
Em meio às sombras e deuses das regiões
subterrâneas, Orfeu fez ecoar a música de sua lira.
Nos Infernos, Sísifo tinha sido condenado a rolar
montanha acima uma pedra que, no alto, voltava a
cair, obrigando-o a recomeçar a tarefa eternamente.
Mas, com aquela música, como que por encanto a
pedra de repente ficou parada, sem ninguém a
segurar. Tântalo, como punição dos deuses, sedento
e faminto, tinha sempre diante de si água e comida,
que, porém, nunca conseguia alcançar. Mas, ao som
da lira de Orfeu, esqueceu-se da fome e sede eterna.
As Danaides tentavam encher de água um tonel
furado; a música encantadora as fez descuidar da
tarefa ingrata. Cantando o amor a Eurídice e a perda
da esposa, comoveu a todos os habitantes do mundo
infernal. Até mesmo de Hades, que tinha um coração
de ferro, arrancou lágrimas.
Hades e Perséfone, os deuses infernais,
concederam, então, que Orfeu levasse Eurídice de
volta à vida, com uma condição: na ida em direção à
luz do dia, ele não deveria, de maneira nenhuma,
olhar para trás antes de deixar o mundo das sombras.
Eis que Eurídice acompanha silenciosa Orfeu, rumo
à superfície da terra. Vão regressando daquelas regiões
escuras, povoadas pelas sombras dos mortos. Percorrem
um caminho abrupto, em meio a trevas e uma névoa
espessa. E a luz já se aproximava, quando, tomado de
intenso amor e esquecido da condição que lhe
impuseram, Orfeu resolveu olhar para a sua Eurídice...
Ouve-se um estrondo espantoso, e Eurídice diz ao
esposo:
— Que loucura foi essa que perdeu a mim e a ti,
Orfeu? Já de novo os destinos cruéis me chamam e o
sono começa a cerrar meus olhos. É hora de dizer-te
adeus. A noite imensa me circunda e ergo em vão
para ti as minhas mãos enfraquecidas.
Disse isso e desapareceu como fumaça nos ares.
Orfeu ficou desesperado, pois sabia que sua música
não poderia dobrar os deuses infernais: eles jamais
se abrandavam com as súplicas humanas. Era
impossível lutar contra suas duras leis.
Por todo o resto de seus dias, sem descanso, sem
trégua à dor, Orfeu cantou o amor por Eurídice, que
perdera para sempre num descuido fatal.
Eurídice pisou numa serpente venenosa oculta
na relva.
O réptil a picou no calcanhar, e ela
desceu ao reino dos mortos, deixando inconsolável
seu marido.
Orfeu, poeta, músico e cantor, sempre
empunhando a lira ou a cítara, era um artista
insuperável. Com seu canto, os animais ferozes se
tornavam pacíficos e o seguiam, as rochas se
moviam, as árvores inclinavam as copas em sua
direção, os homens se acalmavam. Mas a dor pela
perda da esposa foi tal que ele, fugindo do convívio
humano, na solidão, só conseguia pensar em
Eurídice. Sua música, agora triste, só cantava o amor
por Eurídice.
Por fim, resolveu descer ao sombrio
Hades para tentar trazê-la de volta.
Em meio às sombras e deuses das regiões
subterrâneas, Orfeu fez ecoar a música de sua lira.
Nos Infernos, Sísifo tinha sido condenado a rolar
montanha acima uma pedra que, no alto, voltava a
cair, obrigando-o a recomeçar a tarefa eternamente.
Mas, com aquela música, como que por encanto a
pedra de repente ficou parada, sem ninguém a
segurar. Tântalo, como punição dos deuses, sedento
e faminto, tinha sempre diante de si água e comida,
que, porém, nunca conseguia alcançar. Mas, ao som
da lira de Orfeu, esqueceu-se da fome e sede eterna.
As Danaides tentavam encher de água um tonel
furado; a música encantadora as fez descuidar da
tarefa ingrata. Cantando o amor a Eurídice e a perda
da esposa, comoveu a todos os habitantes do mundo
infernal. Até mesmo de Hades, que tinha um coração
de ferro, arrancou lágrimas.
Hades e Perséfone, os deuses infernais,
concederam, então, que Orfeu levasse Eurídice de
volta à vida, com uma condição: na ida em direção à
luz do dia, ele não deveria, de maneira nenhuma,
olhar para trás antes de deixar o mundo das sombras.
Eis que Eurídice acompanha silenciosa Orfeu, rumo
à superfície da terra. Vão regressando daquelas regiões
escuras, povoadas pelas sombras dos mortos. Percorrem
um caminho abrupto, em meio a trevas e uma névoa
espessa. E a luz já se aproximava, quando, tomado de
intenso amor e esquecido da condição que lhe
impuseram, Orfeu resolveu olhar para a sua Eurídice...
Ouve-se um estrondo espantoso, e Eurídice diz ao
esposo:
— Que loucura foi essa que perdeu a mim e a ti,
Orfeu? Já de novo os destinos cruéis me chamam e o
sono começa a cerrar meus olhos. É hora de dizer-te
adeus. A noite imensa me circunda e ergo em vão
para ti as minhas mãos enfraquecidas.
Disse isso e desapareceu como fumaça nos ares.
Orfeu ficou desesperado, pois sabia que sua música
não poderia dobrar os deuses infernais: eles jamais
se abrandavam com as súplicas humanas. Era
impossível lutar contra suas duras leis.
Por todo o resto de seus dias, sem descanso, sem
trégua à dor, Orfeu cantou o amor por Eurídice, que
perdera para sempre num descuido fatal.
domingo, 2 de maio de 2010
Faetonte e o carro do Sol
O jovem Faetonte, criado pela mãe, desconhecia quem fosse seu pai. Um dia, ela lhe contou
quem ele era: o Sol. Desejando comprovar se a revelação era verdadeira, Faetonte foi até a morada
daquele astro, um palácio brilhante de ouro, prata e marfim. Depois de narrar o acontecido, disse-lhe:
— Ó luz do mundo imenso, se minha mãe não
está mentindo, dê-me uma prova de que sou mesmo
seu filho! Acabe de uma vez com essa minha dúvida!
O Sol tirou da cabeça os raios que brilhavam para poder abraçar o filho. Depois de tê-lo abraçado,
disse:
— Para que não tenha dúvida de que sou seu pai,
peça o que quiser, e eu lhe darei. Juro pelo rio dos
Infernos, o Estige. Esse é o juramento que obriga os
deuses a cumprirem sua palavra.
Faetonte, então, pede ao pai que lhe deixe guiar seu carro, que era puxado por cavalos alados.
O pai se arrependeu da promessa, mas não podia voltar atrás. Tentou fazer o filho desistir da idéia:
— Você é um mortal e o que está pedindo não é
para mortais. Só eu posso dirigir o carro que leva o
fogo do céu. Nem Zeus poderia fazer isso. Que
espera encontrar nos caminhos do céu? Você passará
por muitos perigos: os chifres da constelação de
Touro, o arco de Sagitário, a boca do Leão. Além
disso, há os cavalos, difíceis de domar, soltando fogo
pela boca e pelas ventas. Peça outra coisa, filho, e
se mostre mais sensato nos seus desejos.
Mas Faetonte não queria ouvir os conselhos do pai, que foi obrigado a satisfazer àquele pedido.
Levou o rapaz ao carro. Era todo feito de ouro, prata e pedras
preciosas. Faetonte olhou-o cheio de admiração.
Eis que no Oriente a Aurora começou a tingir o céu de rosa. O Sol ordena às Horas velozes que
atrelem os cavalos ao carro. Depois, passa uma pomada divina no rosto do filho, põe os raios ao
redor da sua cabeça e profere estas recomendações:
— Não use o chicote e segure as rédeas com
firmeza. Os cavalos correm espontaneamente; o difícil
é controlá-los. Cuidado para não se desviar da rota.
Nem desça nem suba muito alto. Céu e terra devem
suportar o mesmo calor, por isso vá entre um e outra.
Faetonte se instalou no carro, ligeiro ao suportar o peso de um jovem. Os cavalos alados do Sol
partiram, enchendo o ar com seus relinchos de fogo.
Mas como praticamente não sentiam nenhum peso nem força nas rédeas, puseram-se a correr à vontade,
para fora do caminho habitual. O carro ia para cima e para baixo, provocando grande confusão entre os
astros.
Ao olhar do alto do céu para a terra, Faetonte empalideceu e seus joelhos tremeram de pavor. Já se
arrependia do que pedira ao pai. Que fazer? Tinha um espaço infinito de céu às suas costas, outro tanto
diante dos olhos. Não largava as rédeas, mas era incapaz de segurá-las com firmeza.
De repente, assustando-se à vista do Escorpião, Faetonte largou as rédeas. Os cavalos correram a
toda velocidade por regiões onde jamais o carro do Sol tinha estado. A Lua se espanta de ver os cavalos correndo abaixo dos seus. As montanhas mais altas da terra são as primeiras vítimas das chamas. Depois, o solo se fende, as águas secam, o verde se queima.
Cidades inteiras, com sua gente, viram cinza. Foi naquela época, dizem, que os povos da África
passaram a ter cor negra. Faetonte vê o mundo se abrasar nas chamas do
carro do Sol e não sabe o que fazer. Ele mesmo mal pode suportar o calor. Foi então que a Terra, esgotada pela seca, ergueu sua voz sagrada:
— Se eu fiz por merecer isso, ó Zeus, mais
poderoso dos deuses, por que não lanças teus raios
contra mim? Se devo morrer pelo fogo, que seja ao
menos por meio do teu! Já o mundo todo parece
pronto para voltar ao caos original. Livra das chamas
o que ainda resta. Preocupa-te em salvar o universo!
O pai dos deuses, então, ouvindo aquela súplica, lança um raio contra Faetonte. O jovem, com os
cabelos em chamas, tomba do céu, deixando no ar um traço de fogo, como uma estrela cadente. Ninfas
recolheram seu corpo e o sepultaram. Como epitáfio, escreveram estas palavras:
"Aqui jaz Faetonte, cocheiro do carro paterno.
Não conseguiu dirigi-lo, mas morreu num ato de
grande ousadia."
O pai de Faetonte ficou desolado. Dizem mesmo que durante um dia todo não houve sol sobre a terra.
quem ele era: o Sol. Desejando comprovar se a revelação era verdadeira, Faetonte foi até a morada
daquele astro, um palácio brilhante de ouro, prata e marfim. Depois de narrar o acontecido, disse-lhe:
— Ó luz do mundo imenso, se minha mãe não
está mentindo, dê-me uma prova de que sou mesmo
seu filho! Acabe de uma vez com essa minha dúvida!
O Sol tirou da cabeça os raios que brilhavam para poder abraçar o filho. Depois de tê-lo abraçado,
disse:
— Para que não tenha dúvida de que sou seu pai,
peça o que quiser, e eu lhe darei. Juro pelo rio dos
Infernos, o Estige. Esse é o juramento que obriga os
deuses a cumprirem sua palavra.
Faetonte, então, pede ao pai que lhe deixe guiar seu carro, que era puxado por cavalos alados.
O pai se arrependeu da promessa, mas não podia voltar atrás. Tentou fazer o filho desistir da idéia:
— Você é um mortal e o que está pedindo não é
para mortais. Só eu posso dirigir o carro que leva o
fogo do céu. Nem Zeus poderia fazer isso. Que
espera encontrar nos caminhos do céu? Você passará
por muitos perigos: os chifres da constelação de
Touro, o arco de Sagitário, a boca do Leão. Além
disso, há os cavalos, difíceis de domar, soltando fogo
pela boca e pelas ventas. Peça outra coisa, filho, e
se mostre mais sensato nos seus desejos.
Mas Faetonte não queria ouvir os conselhos do pai, que foi obrigado a satisfazer àquele pedido.
Levou o rapaz ao carro. Era todo feito de ouro, prata e pedras
preciosas. Faetonte olhou-o cheio de admiração.
Eis que no Oriente a Aurora começou a tingir o céu de rosa. O Sol ordena às Horas velozes que
atrelem os cavalos ao carro. Depois, passa uma pomada divina no rosto do filho, põe os raios ao
redor da sua cabeça e profere estas recomendações:
— Não use o chicote e segure as rédeas com
firmeza. Os cavalos correm espontaneamente; o difícil
é controlá-los. Cuidado para não se desviar da rota.
Nem desça nem suba muito alto. Céu e terra devem
suportar o mesmo calor, por isso vá entre um e outra.
Faetonte se instalou no carro, ligeiro ao suportar o peso de um jovem. Os cavalos alados do Sol
partiram, enchendo o ar com seus relinchos de fogo.
Mas como praticamente não sentiam nenhum peso nem força nas rédeas, puseram-se a correr à vontade,
para fora do caminho habitual. O carro ia para cima e para baixo, provocando grande confusão entre os
astros.
Ao olhar do alto do céu para a terra, Faetonte empalideceu e seus joelhos tremeram de pavor. Já se
arrependia do que pedira ao pai. Que fazer? Tinha um espaço infinito de céu às suas costas, outro tanto
diante dos olhos. Não largava as rédeas, mas era incapaz de segurá-las com firmeza.
De repente, assustando-se à vista do Escorpião, Faetonte largou as rédeas. Os cavalos correram a
toda velocidade por regiões onde jamais o carro do Sol tinha estado. A Lua se espanta de ver os cavalos correndo abaixo dos seus. As montanhas mais altas da terra são as primeiras vítimas das chamas. Depois, o solo se fende, as águas secam, o verde se queima.
Cidades inteiras, com sua gente, viram cinza. Foi naquela época, dizem, que os povos da África
passaram a ter cor negra. Faetonte vê o mundo se abrasar nas chamas do
carro do Sol e não sabe o que fazer. Ele mesmo mal pode suportar o calor. Foi então que a Terra, esgotada pela seca, ergueu sua voz sagrada:
— Se eu fiz por merecer isso, ó Zeus, mais
poderoso dos deuses, por que não lanças teus raios
contra mim? Se devo morrer pelo fogo, que seja ao
menos por meio do teu! Já o mundo todo parece
pronto para voltar ao caos original. Livra das chamas
o que ainda resta. Preocupa-te em salvar o universo!
O pai dos deuses, então, ouvindo aquela súplica, lança um raio contra Faetonte. O jovem, com os
cabelos em chamas, tomba do céu, deixando no ar um traço de fogo, como uma estrela cadente. Ninfas
recolheram seu corpo e o sepultaram. Como epitáfio, escreveram estas palavras:
"Aqui jaz Faetonte, cocheiro do carro paterno.
Não conseguiu dirigi-lo, mas morreu num ato de
grande ousadia."
O pai de Faetonte ficou desolado. Dizem mesmo que durante um dia todo não houve sol sobre a terra.
Nyx
A deusa grega Nyx era a personificação da noite. Uma das melhores fontes de informação sobre essa deusa provém da teogonia de Hesíodo. Muitas referências são feitas a Nix naquele poema que descreve o nascimento dos deuses gregos. A explicação é simples. A Noite desempenhou um papel importante no mito como um dos primeiros seres a vir à existência.
Hesíodo afirma que a Noite era filha do Caos, o que a torna uma das primeiras criaturas a emergir do vazio. Isso significa que Nix era irmã de algumas das mais antigas divindades da mitologia grega, incluindo Érebo(a Escuridão), Gaia(a mãe Terra), Tártaro(Trevas abismais) e Eros(o amor da criação). Dessas forças primordiais sobreveio o resto dos deuses gregas. E Nix era responsável por dar origem aos filhos divinos.
Nix deu origem a um enorme número de crias. Algumas dessas crianças da Noite eram Éris (a Discórdia ou Altercação), as moiras (Cloto, Lachesis e Atropos), Nêmesis, as queres (morte em batalha), Oizus (a miséria), os Oniros (a legião dos sonhos), e os irmão gêmeos Hipnos (Deus do sono) e Tânatos (Deus da morte). Conquanto esses seres nasceram de deusas isoladas, sem um pai, Nix também teve filhos do deus Érebo. Dele, a divindade deu à luz Éter, o ar e Hemera, o Dia.
Em sua Teogonia, Hesíodo também descreve a residência proibida da Noite:
"Lá também está a melancólica casa da Noite;
nuvens pálidas a envolvem na escuridão; Antes delas, Atlas se porta, ereto, e sobre sua cabeça, com seus braços incansáveis, sustenta firmemente o amplo céu, onde a Noite e o Dia cruzam um patamar de bronze e então aproximam-se um do outro "
Na tradição Órfica, todo universo e demais Deuses primais nasceram do Ovo Cósmico de Nix.
Nix, cuja raiz é o indo-europeu - Trevas superficiais ou A Noite. Habita o extremo Ocidente, além do país dos Cimérios, enquanto Érebo personifica as trevas subterrâneas e superiores ao manto da Escuridão eterna, superiores supremas.
Nix percorre o céu, coberta por um manto negro, sobre um carro puxado por quatro cavalos negros e sempre acompanhada das Queres. Certos poetas a consideram como mãe de Urano e de Gaia; Hesíodo dá-lhe um lugar entre os filhos do Caos com o posto de Mãe dos Deuses, porque sempre se acreditou que a Nix e Érebo haviam precedido a todas as coisas.
Nix é a patrona das feiticeiras e bruxas, é a Deusa dos segredos e mistérios noturnos, rainha dos astros da noite. Homero se refere a Nix com o epíteto "A domadora dos Homens e dos Deuses", demonstrando como os outros Deuses respeitavam-na e temiam esta poderosíssima deidade.
Nix, assim como Hades, possuía um capuz que a tornava invisível a todos. assistindo assim ao universo sem ser notada. Foi Nix que colocou Hélios entre seus filhos (Hemera, Éter e Hespérides); quando os outros Titãs tentaram assassinar Hélios. Zeus tem um enorme respeito e temível pavor da Deusa da Noite, Nix. Os filhos de Nix são a Hierarquia em poder para os Deuses, sua maioria são divindades que habita o mundo subterrâneo e representam forças indomáveis e que nenhum outro Deus poderia conter. Em uma versão, as Erínias seriam filhas de Nix (Ésquilo), Nix era cultuada por bruxas e feiticeiras, que acreditavam que ela dava fertilidade a terra para brotar ervas encantadas, e também se acreditava que Nix tinha total controle sobre vida e morte, tanto de homens como de Deuses.
Nix aparece ora como uma deusa benéfica que simboliza a beleza da noite (semelhante a Leto) e ora como cruel deidade Tartárea, que profere maldições e castiga com terror noturno (Hécate e Astéria). Nix é também uma Deusa da Morte, a primeira rainha do mundo das Trevas. e Nix também tinha dons proféticos, e foi ela quem criou a arma que Gaia entregou a Cronos para destronar Urano. Nix conhecia o segredo da imortalidade dos Deuses podendo tirá-la e transformar um Deus em mortal, como ela fez com Cronos apos este ser destronado por Zeus.
Desposou Érebo, seu irmão, de quem teve o Éter (luz celestial) e Hemera (Dia). Mas sozinha, sem se unir a nenhuma outra divindade, procriara o inevitável e inflexível Moros (as Sortes), Kera (destina o tipo de morte o destino do homem em seus momentos finais), a Tânatos (Morte), Hipnos (o Sono), Oniro (a legião dos Sonhos), Momos (escarnio), Oizus (miséria), as Hespérides (Tarde), guardadoras dos pomos de ouro, as desapiedadas Moiras (Deusas do destino), a divina Nêmesis (Deusa da retribuição), Apate (engano,fraude), Filotes (amizade) , Geras (velhice) Éris (Discórdia) Limos (a fome), Ftono (inveja), Ênio (Belona, deusa da carnificina) Lissa (a loucura) e Caronte o barqueiro do rio Aqueronte do mundo dos mortos (que transporta as almas dos mortos entre o mundo dos vivos para o mundo dos mortos - o Rio Aqueronte na verdade era o Deus Érebo que foi precipitado em rio sinistro de Hades como forma de castigo por Érebo ter apoiado os Titãs contra os Olimpos, Nix o castigou) a fronteira dos dois mundos; em resumo, tudo quanto havia de doloroso na vida passava por ser obra de Nix, a maior parte dos outros descendentes de Nix nada mais são que conceitos e abstrações personificados; sua importância nos mitos é muito variável.
Algumas vezes, a exemplo de Hades, cujo nome evitava-se de pronunciar, dão a Nix nomes gregos de Eufrone e Eulalia, isto é, "Mãe do bom conselho". Há quem marque o seu império ao norte do Ponto-Euxino, no país dos Cimérios; mas a situação geralmente aceita é na parte da Espanha, - a Esméria, na região do poente, perto das colunas de Héracles, limites do mundo conhecido dos antigos. Quase todos os povos da Itália viam Nix ora com um manto volante recamado de estrelas por cima de sua cabeça e archote derrubado, ora representavam-na como uma mulher nua, com longas asas de morcego e um fanal na mão. Representam-na também coroada de papoulas e envolta num grande manto negro, estrelado. Na mitologia grega a papoula era relacionada a Hipnos, o deus do sono e filho de Nix -que a tinha como planta favorita e, por isso, era representado com os frutos desta planta na mão. Há também uma relação entre a papoula e a deusa Nix. Freqüentemente, ela é representada coroada de papoulas e envolta num grande manto negro e estrelado. Às vezes num carro arrastado por cavalos pretos ou por dois mochos, e a deusa cobre a cabeça com um vasto véu semeado de estrelas e com uma lua minguante na testa ou como brincos.
Muito freqüentemente colocam-na no mundo subterrâneo, entre Hipnos e Tânatos, seus dois filhos. Algumas vezes um menino precede-a, empunhando uma tocha, símbolo do crepúsculo. Os romanos representavam-na ociosa e sempre adormecida. É muito rica em todas as potencialidades de existência, mas entrar em Nix é regressar ao indeterminado, onde se misturam pesadelos, íncubos, súcubos e monstros. Símbolos do inconsciente, é no sono noturno que estes se liberam.
Hemera e as Hespérides nasceram para ajudar Nix a não se cansar, assim nasceu o ciclo diário, Hemera trás o dia (relaciona com Eos, a aurora, e Helios, o Sol) ; as Hespérides trazem a tarde, (relaciona com Selene a lua) e Nix tráz a absoluta Noite, todas estas deidades em conjunto conduzem a dança das Horas; complementando estes ciclos temos outros Deuses de outras linhagens, como as Horas que representam ciclos mensais e anuais; Leto e Hécate que recebem o legado de Nix como deidade da noite. As Moiras, filhas de Nix (Cloto, Laquesis e Atropo); são outra continuidade dos poderes gigantescos de Nix do negro véu…
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