domingo, 2 de maio de 2010

Faetonte e o carro do Sol

O jovem Faetonte, criado pela mãe, desconhecia quem fosse seu pai. Um dia, ela lhe contou
quem ele era: o Sol. Desejando comprovar se a revelação era verdadeira, Faetonte foi até a morada
daquele astro, um palácio brilhante de ouro, prata e marfim. Depois de narrar o acontecido, disse-lhe:

— Ó luz do mundo imenso, se minha mãe não
está mentindo, dê-me uma prova de que sou mesmo
seu filho! Acabe de uma vez com essa minha dúvida!

O Sol tirou da cabeça os raios que brilhavam para poder abraçar o filho. Depois de tê-lo abraçado,
disse:

— Para que não tenha dúvida de que sou seu pai,
peça o que quiser, e eu lhe darei. Juro pelo rio dos
Infernos, o Estige. Esse é o juramento que obriga os
deuses a cumprirem sua palavra.

Faetonte, então, pede ao pai que lhe deixe guiar seu carro, que era puxado por cavalos alados.
O pai se arrependeu da promessa, mas não podia voltar atrás. Tentou fazer o filho desistir da idéia:

— Você é um mortal e o que está pedindo não é
para mortais. Só eu posso dirigir o carro que leva o
fogo do céu. Nem Zeus poderia fazer isso. Que
espera encontrar nos caminhos do céu? Você passará
por muitos perigos: os chifres da constelação de
Touro, o arco de Sagitário, a boca do Leão. Além
disso, há os cavalos, difíceis de domar, soltando fogo

pela boca e pelas ventas. Peça outra coisa, filho, e
se mostre mais sensato nos seus desejos.

Mas Faetonte não queria ouvir os conselhos do pai, que foi obrigado a satisfazer àquele pedido.
Levou o rapaz ao carro. Era todo feito de ouro, prata e pedras
preciosas. Faetonte olhou-o cheio de admiração.
Eis que no Oriente a Aurora começou a tingir o céu de rosa. O Sol ordena às Horas velozes que
atrelem os cavalos ao carro. Depois, passa uma pomada divina no rosto do filho, põe os raios ao
redor da sua cabeça e profere estas recomendações:

— Não use o chicote e segure as rédeas com
firmeza. Os cavalos correm espontaneamente; o difícil
é controlá-los. Cuidado para não se desviar da rota.
Nem desça nem suba muito alto. Céu e terra devem
suportar o mesmo calor, por isso vá entre um e outra.

Faetonte se instalou no carro, ligeiro ao suportar o peso de um jovem. Os cavalos alados do Sol
partiram, enchendo o ar com seus relinchos de fogo.
Mas como praticamente não sentiam nenhum peso nem força nas rédeas, puseram-se a correr à vontade,
para fora do caminho habitual. O carro ia para cima e para baixo, provocando grande confusão entre os
astros.
Ao olhar do alto do céu para a terra, Faetonte empalideceu e seus joelhos tremeram de pavor. Já se
arrependia do que pedira ao pai. Que fazer? Tinha um espaço infinito de céu às suas costas, outro tanto
diante dos olhos. Não largava as rédeas, mas era incapaz de segurá-las com firmeza.
De repente, assustando-se à vista do Escorpião, Faetonte largou as rédeas. Os cavalos correram a
toda velocidade por regiões onde jamais o carro do Sol tinha estado. A Lua se espanta de ver os cavalos correndo abaixo dos seus. As montanhas mais altas da terra são as primeiras vítimas das chamas. Depois, o solo se fende, as águas secam, o verde se queima.
Cidades inteiras, com sua gente, viram cinza. Foi naquela época, dizem, que os povos da África
passaram a ter cor negra. Faetonte vê o mundo se abrasar nas chamas do
carro do Sol e não sabe o que fazer. Ele mesmo mal pode suportar o calor. Foi então que a Terra, esgotada pela seca, ergueu sua voz sagrada:

— Se eu fiz por merecer isso, ó Zeus, mais
poderoso dos deuses, por que não lanças teus raios
contra mim? Se devo morrer pelo fogo, que seja ao
menos por meio do teu! Já o mundo todo parece
pronto para voltar ao caos original. Livra das chamas
o que ainda resta. Preocupa-te em salvar o universo!

O pai dos deuses, então, ouvindo aquela súplica, lança um raio contra Faetonte. O jovem, com os
cabelos em chamas, tomba do céu, deixando no ar um traço de fogo, como uma estrela cadente. Ninfas
recolheram seu corpo e o sepultaram. Como epitáfio, escreveram estas palavras:

"Aqui jaz Faetonte, cocheiro do carro paterno.
Não conseguiu dirigi-lo, mas morreu num ato de
grande ousadia."

O pai de Faetonte ficou desolado. Dizem mesmo que durante um dia todo não houve sol sobre a terra.

17 comentários: